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Centenas de anos antes, a humanidade destruiu o nosso verdadeiro lar. Deixando para trás nada fora uma planeta inabitável e deserto, e ainda assim, por conta de nossos genes eles usaram nossos antepassados como nada fora ratos dispensáveis de laboratório. Ratos que podiam ser procriados o quanto necessário. Só o pensamento já faz meu estômago se revirar, e eu posso sentir o ácido queimando a minha garganta e suplicando para macular o chão gelado da minha escura cela. Eu engulo à seco, tentando ao máximo me estabilizar novamente enquanto me inclino para trás, minha cabeça finalmente tocando a densa parede de metal às minhas costas.
Os pensamentos dos últimos dias rondeiam minha cabeça de forma desorganizada, mas todos eles se quebrando em estranhos fragmentos por conta dela. A irmã que eu nunca soube existir, a irmã que provavelmente também não sabia da minha existência e que eles provavelmente nunca contaram a realidade de nossa existência para. A realidade lentamente se assenta na minha cabeça, aquela garota da qual eles chamam de oráculo é nada mais do que meu próprio reflexo. Parte de uma esquecida espécie alienígena que os humanos usaram para brincar de Deus e nada mais. E nós duas eramos o resultado de tal brincadeira inútil. Mestiças, parte humanas e parte alienígenas. A maior diferença era que apenas uma de nós era dócil, e claramente essa não era eu.
Assim como o codinome dela era Paz, o meu era Guerra. A espécie da qual pertencíamos foi conhecida pelos seus poderes telecinéticos, um traço genético que chamou a atenção dos humanos desde o nosso primeiro contato com os mesmos depois deles terem entrado o espaço sideral pela primeira vez milhares de anos atrás. Assim como fomos nós quem demos a eles a tecnologia para avançar tantos milhares de anos tão rápido. Ainda assim, no final, fomos vistos como nada fora animais.
“Essa é defeituosa.” Um dos cientistas disse bem na minha cara, talvez esperando que eu não o entendesse. Mesmo sendo nada fora uma pequena criança eu já conseguia entender suas palavras imundas enquanto seus olhos analíticos pareciam pairar sob o meu pequeno corpo naquela maldita e brilhante sala branca e acolchoada. Eu sabia que estava ali pelo bem deles e não pelo meu próprio, mas ainda assim tudo que conseguia sentir era ódio por ter sido largada naquele maldito lugar. “Você acha que ainda dá pra usar como cobaia?” Um outro, mais novo que o primeiro, perguntou. Seus olhos também pareciam queimar cada detalhe da minha pele pálida e translucida em seus curiosas retinas. “E pensar que essa coisa poderia quebrar nossos pescoços com um único pensamento…” O mais novo continuou, sua voz levemente mais baixa enquanto ele se afastava. “Ela não tem como.” O primeiro, mais velho, lhe respondeu enquanto apontava para a minha cara.
Só existia uma forma de conter os poderes intrínsecos da minha espécie, e o maldito capacete que amassava as orelhas de lobo em minha cabeça era essa forma. Ele funcionava como uma barreira de metal entre as ondas cerebrais que exalavam das minhas orelhas para o mundo exterior. Era irritante e desconfortável, e o exato motivo de eu ter vindo parar naquela desgraça de quarto acolchoado. “Entendi… Então ela não pode fazer absolutamente nada?” O mais novo perguntou novamente, seus olhos fixados no fino capacete de metal na minha cabeça. “Não.” Foi a resposta que ele ganhou de volta enquanto os dois humanos nojentos saíram do pequeno quarto, me deixando ali com meus próprios pensamentos mais uma vez.
Eu sonhava em sair daquele laboratório frio e estéril. Das poucas coisas que eu havia aprendido naqueles poucos meses de vida foi que minha espécie envelhecia muito mais rápido do que os humanos e que existia todo um universo de coisas do lado de fora daquelas paredes. Um universo de coisas que eu queria ver e explorar. Sentir e cheirar. Mas aquele não era meu destino como cobaia, e após ter visto muitos outros como eu simplesmente desaparecer depois de um tempo eu já esperava o pior. E o pior eu recebi.
Não teria como eu me esquecer da dor que queimava nas minhas costas enquanto meu corpo estava atado à fria mesa de cirurgia de todas as formas possíveis. Ainda assim meus gritos ecoavam por todo o laboratório. Na noite anterior, durante um dos testes algo havia dado errado e uma das agulhas perfurou um dos meus nervos cervicais. Agora eles estavam fazendo tudo que podiam para corrigir seu próprio maldito erro. Fundindo o aço à minha coluna e tentando religar meus nervos de alguma forma. Sinceramente, eu não sei dizer quantas horas passaram, mas minha voz com toda a certeza sumiu depois de algum tempo. E quando acordei novamente podia sentir o gelado metal perfurando as minhas costas. Mas pelo menos minhas pernas ainda funcionavam não é mesmo?
Para a sorte de todos, meu corpo já havia chegado à uma idade madura o suficiente onde não seria necessário se preocupar com o crescimento dos meus ossos. Ainda assim, aquele foi o incidente que fez a minha raiva se tornar nada fora puro ódio. Aquela cicatriz que corria por toda a minha espinha, o metal que ainda levemente saia pela mesma parecia congelar minha pele contra a mesa de metal em que estava deitada ainda. Meus dedos instintivamente foram para o meu pescoço, onde eu podia sentir o colar de metal que ajudava a suportar o metal forjado na minha coluna.
O ódio rapidamente subiu à minha mente, e o maior erro deles foi não colocar o maldito capacete de volta depois da cirurgia. Todos os móveis à minha volta começaram a tremer, vidros à se quebrar enquanto eu me sentava lentamente. Os humanos não levaram muito tempo para notar o que estava acontecendo. Todos sabiam que algo havia dado muito errado no segundo que toquei meus pés no mármore gelado e tudo começou a voar em direção à pesada porta de metal que se torceu como um suave doce de goma. O alvoroço que causei aquele dia ficou marcado na história. Mais da metade do laboratório desapareceu em caos e chamas, só parando quando finalmente pisei para o lado de fora pela primeira vez.
A calma se lavou sobre o meu corpo todo quando senti a leve brisa de um planeta agora coberto por metal, prédios e fumaça. Aquela foi a primeira vez que respirei o ar tóxico do que antes era a Terra. A única coisa que levei comigo daquele lugar maldito foi uma máscara de gás. Máscara que até hoje está comigo, presa perfeitamente em meu rosto enquanto sento aqui, remoendo o passado.
O barulho da porta de metal se abrindo foi o que me tirou de dentro da minha própria cabeça e de volta para o mundo dos vivos. Na minha frente estava o comandante da nave em que eu havia sido levada para julgamento, um homem aparentemente humano talvez no começo de seus vinte e poucos anos. Não me surpreendia ver alguém tão jovem num lugar tão alto de poder considerando o quão fácil é morrer lá fora. “Espero que esteja confortável.” Ele começa, sua voz ecoando pelo metal enquanto se recosta contra a parede, meu olhar fixado em seus olhos, como se eu estivesse tentando entender o que ele queria comigo ou porque raios teve coragem o suficiente para entrar naquela cela. Louco? Talvez ele fosse. “Esse lugar é bem longe de confortável.” Finalmente respondo depois de alguns longos minutos de puro silêncio, apenas o zumbido do motor ao fundo quebrando o mesmo.
Sua risada abafada me fez mais uma vez virar meu olhar em sua direção ao invés de encara as estrelas passantes ao lado de fora da minha minúscula e oval janela. “O que tem de engraçado?” Lhe pergunto com um rosno enquanto ele parece tentar segurar sua risada. “Codinome Guerra. O ser mais procurado e perigoso da Confederação de Sobrevivência Humana está bem na minha frente, e tudo que consigo ver é uma garota perdida e sem rumo.” Ele respondi com um ronco. No passado, suas palavras teriam me atingido e com toda a certeza eu teria jogado algo em seu rosto jovem e perfeito até que sobrasse nada fora uma polpa irreconhecível de carne e ossos. Mas naquele momento, tudo que fiz foi puxar o ar profundamente pelo meu nariz, o filtro da máscara de gás em meu rosto fazendo um sibilo reconfortante e nostálgico como na primeira vez a coloquei. “Considerando que você usa minha gêmea como seu animal de estimação pessoal você já deveria saber que nossa espécie não é conhecida pela calma.” Minhas palavras soavam mais como um aviso para mim mesma do que para ele. Mas foi o desaparecimento de sua risada e seus pesados passos em minha direção que novamente me trouxeram à realidade.
Pareceu apenas um segundo e meio quando ele já estava logo no meu rosto, sua face antes tão perfeita e jovem agora contorcida em uma carranca que não parecia natural. E com um rosno ele bateu seu punho na parede logo atrás da minha cabeça. “Você não ouse falar assim dela.” Ele rosnou. Suas palavras e atitudes não me intimidavam, ao contrário, pareciam mais engraçadas do que qualquer coisa. E pela primeira vez em muito tempo, eu quem tava rindo, quase que descontroladamente. “Você quer mesmo que eu acredite nisso?” Minha pergunta era simples, mas foram meus movimentos contraditórios que o fez tomar um passo para trás. Aquela havia sido a primeira vez em muitos milênios que tirei aquela máscara que já parecia moldada ao meu corpo. Eu podia ver sua mandíbula caindo ao chão. Nós éramos cópias exatas uma da outra, reflexões opostas de um mesmo ser. “Eu sei muito bem como vocês humanos tratam mestiços como minha irmã e eu. Você não ouse agir como o herói nessa história.” Eu rosnei de volta, suavemente colocando a máscara ao meu colo como se fosse uma pequena criança. Uma pequena parte de mim mesma.
A confusão no ar era palpável e claramente vinda do humano à minha frente. E por meio segundo eu quis rir antes de meus pensamentos serem atacados por todo o tipo de sentimento conflitante. Amor, ódio, paz, caos, tristeza, felicidade. Eu podia sentir todas elas de uma única vez, e tudo que pude fazer foi tapar minhas orelhas e cair à cama em uma posição fetal. Ele parecia me olhar assustado, mas a confusão mental era simplesmente muito para que eu pudesse sinceramente saber o que raios estava se passando no rosto daquele homem. “Desculpe,” a calma e quieta voz ecoou pelo caos da minha mente “não posso deixar você machucar o comandante.” Ela continuou, aquela voz tão parecida com a minha própria. Meus olhos pularam pela pequena cela, finalmente parando na figura quase incandescente e pálida na porta. O comandante também se virou, um tanto quanto surpreso de ver Paz de todas as pessoas logo ao seu lado. Aos poucos, a confusão e os pensamentos gritantes pararam. Ela havia mesmo me atacado, atacado sua própria carne para proteger um humano.
“Como raios você pôde?!” Eu rosnei, lentamente me levantando, por mais que todo o quarto ainda estivesse rodando. Ela se encolheu, parecendo se esconder atrás dele como uma pequena criança se esconde atrás de seus pais. “Eu ouvi dizer que você era selvagem…” ela responde de forma frágil e delicada, e minha única resposta é um riso seco. “Somos idênticas, você é selvagem também?” pergunto de volta enquanto tento ao menos fazer tudo para de rodar, segurando minha cabeça e estômago em lugar. Paz fica em silêncio, enquanto o nojento humano coloca seu braço esquerdo em volta dela, como se à estivesse protegendo. Que piada. Um humano querendo proteger uma de nós. Um conto de fadas, nada fora ficção. Eu não duvido por meio segundo que ele tenha outras intenções com tudo isso.
Posso ver seus suaves olhos vagarem pela pequena sala de metal, sua pele pálida tão límpida que eu tinha certeza que podia ver suas veias azuis perfeitamente. “Só… não machuque ninguém, por favor.” Sua voz calma e fraca se dirigiu à minha pessoa. Não ao humano ao seu lado que provavelmente já havia estraçalhado centenas de nós. “Você tem noção do que está me pedindo?” Por um momento pensei que aquela não era minha voz, a calma tão calculada que nem parecia que o ódio estava borbulhando pelo meu sangue. “Você já perguntou à ele quantos de nós ele já matou?” Continuei, minha voz ainda tão calma quanto antes. Seus olhos pareciam pular de mim ao homem ao seu lado como um pequeno cervo parado à frente de um carro em movimento. Por mais que de relance eu ainda podia vê-lo cerrar os dentes, apenas confirmando minhas suspeitas. Ela não sabia.
“Do que está falando?” Ela perguntou, parecendo curiosa enquanto finalmente se soltava do humano ao seu lado para vir em minha direção. Seu longo vestido branco se arrastando pelo sujo chão da cela até sua testa encontrar a minha. A sensação era estranha, ao contrário de seu ataque mental de antes, desta vez era como se eu estivesse sentindo todos os calmos sentimentos da sua mente. Calma acompanhada de curiosidade e confusão. Aqueles eram os sentimentos que vinham à minha cabeça enquanto fechava os olhos e apenas à deixava navegar pelo mar de memórias em minha mente. Não levaram mais do que alguns longos segundos para que ela cambaleasse para trás, sua respiração irregular fazendo com que o comandante às suas costas viessem correndo e lhe segurasse.
Seus fracos olhos me encararam em terror, mas eu não conseguia distinguir se o terror era sobre o que eu havia feito ou o que eles haviam feito comigo. Talvez um pouco dos dois. “Tem… outros?” Ela perguntou suavemente, não em voz alta, mas com sua mente. “Sim, em algum outro planeta destruído. Outros que ao contrário de você e assim como eu foram julgados como defeituosos.” Lhe respondi, faziam anos que não havia me comunicado com ninguém telepaticamente. Mas talvez por conta de nossas origens a conexão parecia estável e simples. “Você acha mesmo que…” Ela se parou, sua cabeça fisicamente se movendo para olhar para o resto preocupado do homem que lhe segurava. “Provável.” Lhe respondi antes mesmo que seus olhos se voltassem à mim. Paz precisava saber, nós éramos um e o mesmo. Não éramos inimigas mortais. Éramos diferentes lados de uma mesma moeda.
“Você sabia sobre os outros, Voss?” Ela perguntou suavemente, desta vez sua suave voz ecoou pelo metal enquanto ela se ajeitava e se largava das nojentas mãos do humano ao seu lado. Ele engoliu seco, parecendo medir sua resposta. “Sim.” O homem lhe respondeu um tanto quanto seco. Se eu não soubesse a verdade teria dito que eles poderiam ser um par um tanto quanto perfeito, seus jovens rostos tão delicadamente esculpidos que pareciam sair de um filme. Mas ao ouvir sua resposta ela não parecia nem um pouco feliz ou animada. “Existem outros… como você, como eu…” ela continuou, sua voz ecoando loucamente dentro da minha cabeça. Eu conhecia aquele tom, e não pude segurar o sorriso que apareceu em meu rosto enquanto cobria minhas orelhas.
“Você mentiu pra mim!” Ela exclamou, o vidrou na grossa de metal se rachando apenas com a sua voz. Seus olhos logo se transmutaram, o suave lilás dando lugar à um horrendo vermelho cor de sangue. E pelo olhar do rapaz à sua frente aquela era, sem sombras de dúvida, a primeira vez que ela havia perdido o controle. “Você sabia o que eles estavam fazendo com os outros. Você escondeu de mim, todo esse tempo! Como?!” Ela continuou, desta vez gritando enquanto ele lhe segurou pelos braços com toda a força que tinha. “Exatamente por esse tipo de situação!” Ele gritou em seu rosto. De alguma forma a voz do rapaz quebrou o feitiço de ódio que havia tomado Paz. Seus olhos lentamente voltando ao conhecido e suave lilás enquanto uma feição de dor e confusão tomava seu rosto.
Um longo e cansado suspiro escapou meus lábios enquanto eu deitava de volta na cama, minhas costas viradas para os dois. “Me deixem em paz.” Rosnei, sem querer ver a expressão de nenhum deles. Era um tanto quanto óbvio que ela havia caído de paixões pelo nojento logo à sua frente. Como raios ela não conseguia ver a realidade?!
Eu podia vê-la ali, deitada de costas para mim. Seus longos cabelos negros pareciam tão suaves quanto os meus fios loiros enquanto caíam da cama ao chão como uma cachoeira à noite. Ela era minha irmã gêmea, e ainda assim havia tido experiências tão diferentes das minhas. Meu coração pareceu se partir em dois quando finalmente consegui mover meus pés novamente. Empurrando Voss para o lado com meu ombro antes de sair furiosamente de sua cela. Eu queria correr, me esconder e gritar. Tudo ao mesmo tempo. Mas eu não podia. Eu era o Oráculo da Paz. Oráculo que guiou a Confederação de Sobrevivência Humana até o inferno e voltou sem nenhum arranhão. E agora eu sabia a verdade. Fui eu quem os levei até minha própria carne e sangue, eu quem os deixei massacrar tantos outros como eu e minha irmã.
Meu corpo se congelou no longo corredor branco de metal, as lágrimas se escorrendo quentes no meu rosto que antes parecia frio graças ao sistema de ventilação da nave. Eu me odiava por tudo que havia acontecido. Como pude ser tão cega? Eu segui todas as suas ordens sem pensar duas vezes. Sem se quer perguntar do que estavam falando. Eu não tinha direito de receber pena de ninguém, nem de mim mesma. “Paz!” Eu podia ouvir a voz de Voss ecoando no corredor às minhas costas. Eu queria correr, eu queria tanto correr… mas meus pés simplesmente não me obedeciam mais. “Por favor, me escute!” Ele suplicou, parecendo estar segurando um choro. Lentamente, consegui me virar, meu rosto ainda pendente para baixo. Encarando nada fora o longo e intricado vestido branco que eles haviam designado como meu uniforme. “Confie em mim, tudo isso foi necessário para manter o equilíbrio.” Voss continuou, suas fortes mãos segurando meus braços como se eu fosse uma criança que precisava de um pouco mais de coragem para fazer algo. “Isso é genocídio…” Minha voz sai fraca, não muito mais alta do que um simples suspiro. As lágrimas enchem meus olhos, e eu preciso sugar o ar com mais força do que o normal para lhes acalmar. Ele deixou um suspiro lhe escapar, na verdade, ele parecia mais cansado que o normal. E imagino que eu estar desta forma não esteja ajudando. “Desculpe…” murmurei enquanto dava um pequeno passo para trás, minha cabeça ainda zunindo com as imagens da mente dela.
O sangue, os corpos, as mortes, as dores. Eu pude sentir tudo em menos de um único segundo. Era como se meu corpo todo estivesse em chamas e eu não pudesse fazer nada sobre. “Tudo bem, volte pra sua cabine.” Voss finalmente levantou sua voz de leve enquanto se virava e me deva um meio aceno com a mão. Mesmo depois de processar suas palavras ainda fiquei parada ali por mais alguns segundos antes dos meus pés finalmente me obedecerem e continuarem seus cansado caminho até minha cabine.
Agora aquele lugar parecia gelado e inóspito. A confortável e macia cama coberta por uma fina cortina branca e os aconchegantes sofás em volta da pequena mesa faziam meu estômago revirar. As imagens da aperta e gelada cela em que ela estava vinham na minha cabeça mesmo enquanto me sentava no sofá e abraçava meus próprios joelhos. À minhas costas, a grande janela de vidro reforçado que ia do chão ao teto me dava uma privilegiada visão das nebulosas que nos envolviam. Era uma das vistas mais lindas que eu já tinha presenciado. Mas agora me perguntava se minha irmã já as tinha visto também.
Os segundos viraram minutos, e os minutos horas enquanto eu encarava o lado de foras da janela. O longínquo espaço me encarando de volta. Minha concentração foi quebrada quando a porta se abriu e Voss finalmente entrou. Suas pesadas botas militares anunciando a sua chegada. “Você está bem?” Ele sussurrou enquanto envolvia seus braços em meus ombros. Tudo que pude fazer foi chacoalhar minha cabeça, eu não estava bem. “Entendo…” Ele continuou, mesmo com o meu silêncio. Seu rosto acariciando o meu cabelo enquanto seus lábios caiam até o meu pescoço. “Eu te vi.” Foram as palavras que finalmente deixaram os meus lábios e eu pude sentir quando seus braços se enrijeceram em volta de mim. “Do que está falando?” Voss perguntou com um tom muito mais sério do que o seu usual, pelo menos considerando que estávamos sozinhos. “Nas memórias dela. Eu te vi.” Respondi um pouco surpresa quando ele se afastou com um pesado suspiro. “Você os” Eu comecei a dizer quando sua voz se levantou muito mais do que seu usual. “Você não sabe de nada!” Ele rosnou em minha direção e meus olhos automaticamente se arregalaram.
Ele nunca havia gritado comigo antes. Eu já havia o visto gritar, várias vezes, para dizer a verdade. Mas nunca em minha direção, nunca com tanta violência. “Entendi…” lhe respondi depois de alguns estranhos minutos em silêncio. “Desculpe.” Ele finalmente me respondeu com um suspiro cansado. “Tudo isso está sendo… mais estressante do que o normal.” Voss continuou, seus dedos delicadamente acariciando meu ombro. “Eu te disse, ela é selvagem. Nenhum de nós sabia o que eles poderiam ter feito para tentar fugir.” Ele voltou a sussurrar carinhosamente. “Eles ainda eram seres vivos…” Lhe respondi enquanto abraçada meus joelhos. “É por isso que você não sai daqui.” Voss me respondeu com um estranho olhar que eu não sabia decifrar. “A guerra é cruel. E você não aguentaria ver tudo aquilo.” Eu engulo seco quando ouço suas palavras.
Eu não era uma criança, ainda assim ele parecia me tratar como uma.
“Existem dois lobos em todos nós, querido.” Minha mãe me explicou enquanto estávamos passando em frente à um pequeno acampamento militar. Meus olhos pequenos e infantis persistindo nos aliens ajoelhados, abatidos e com correntes de aço em seus pescoços, pulsos e calcanhares. “O que isso quer dizer, mamãe?” Minha pequena voz pergunta enquanto caminhos calmamente pela rua em direção à nosso pequeno apartamento. “Quer dizer que ninguém é completamente bom ou completamente mal.” Ela me explicou com um grande e carinhoso sorriso.
Minha visão se torna turva e a escuridão me cobre. Eu estava dentro de um armário, as pequenas frestas me dando uma minúscula visão do meu maior pesadelo. Minha mãe está de joelhos, gritando por misericórdia enquanto um dos aliens pisoteia a cabeça de meu pai que já estava em pelo menos dois pedaços. A massa rosada de seu cérebro espatifada pelo chão enquanto eu cubro minha boca com as minhas pequenas mãos. Meu estômago se revira quando a casa parece se chacoalhar, a estranha sensação me faz pular.
Meus olhos se abrem enquanto eu tento recuperar minha respiração, as arfadas rápidas e curtas me fazem notar que tudo era apenas um pesadelo. O chacoalhar do pequeno shuttle de viagem me faz querer vomitar, mas a bile corroer minha garganta ainda é melhor do que aquele maldito pesadelo de todas as noites. Lentamente me sentei na cama com um leve grunhido, deixando minha cabeça se encostar no gelado metal da parede às minhas costas. Tomo um longo suspiro enquanto minha respiração finalmente volta ao normal. Aqui estava eu, dezenove anos de idade e indo para a maior nave espacial da Resistência Humana.
Eu estava no exército desde os quinze, subi de patente um tanto quanto rápido pelas minhas habilidades. Ou talvez fosse apenas o trauma e a violência dentro da minha cabeça gritando para matar tudo que eu visse pela frente. Ainda assim, aqui estava eu. Indo me tornar o Comandante de uma nave toda. Se meus pais ainda estivessem vivos talvez estivessem orgulhosos de mim. Mas quem raios sabe.
Com outro grunhido, me levantei da cama, rapidamente socando meus pés de volta nas botas do exército e colocando minha nova jaqueta azul marinho, decorada com algumas linhas douradas nas dobras e algumas das medalhas que eu havia recebido ao lado direito do meu peito. A porta automaticamente se abre, deslizando para cima e abrindo caminho pelo pequeno e apertado corredor. Haviam algumas outras pequenas cabines, mas meu foco estava mais na grande janela que se estendia pelo cockpit do piloto que apenas me deu eu aceno enquanto chegávamos mais perto da grande nave que agora seria minha casa. Eu nunca havia estado fora de um planeta por mais de algumas horas antes. A minha questão na minha cabeça era se eu iria me acostumar com o constante chacoalho que fazia meu estômago querer se revirar.
Não demorou muito para que o pequeno shuttle se acoplasse à saída da Protea. Ao seu lado a pequena nave em que eu estava parecia nada mais do que uma formiga espacial. Meus pés deram passos pesados para fora uma vez que o ar se estabilizou no pequeno vácuo criado pela ponte.
A primeira pessoa à me dar boas-vindas foi o piloto daquela massiva nave. “Comandante Voss” o homem mais velho e de cabelos escuros mas com salpicados grisalhos me deu uma continência que eu apenas copiei “Espero que sua viagem tenha sido confortável.” Ele continuou com um sorriso que parecia mais educado do que feliz. Sua fisionomia não era ruim considerando que ele eram um piloto e não um soldado qualquer. “Capitão Murox” finalmente lhe respondi após alguns segundos de silêncio enquanto meus olhos tentavam compreender a enorme doca de carga em que estávamos “S-sim, foi… confortável” lhe respondi um pouco sem jeito. Poderia ter sido melhor, mas eu não tinha o estômago para lhe dizer. “De qualquer forma, lhe levarei à Oráculo.” O capitão continuou com um sorriso ainda educado enquanto se virava para começar à andar.
Em silêncio, apenas o segui sem fazer perguntas. Como um soldado qualquer eu sabia da existência dos Oráculos. Não sabia o que eles faziam ou para que serviam, tudo que eu sabia como um garoto aleatório de baixa patente era que esses oráculos eram aliens mestiços. Parte alien e parte humano. Existiam vários rumores enquanto os soldados sobre o que um Oráculo faz, algumas suposições mais amigáveis do que as outras. Mas existia pelo menos um concesso entre os soldados que geralmente estavam alistados nos planetas e não nas naves. Oráculos deveriam ser odiados por serem metade aliens, eles eram claramente parte do inimigo, então porque raios estavam em todas as naves?
As perguntas rodeavam a minha cabeça enquanto nossas pesadas botas ecoavam pelos chãos de metal da grande nave. Viramos vários corredores que pareciam serpentear e se revirar até chegarmos à um quarto solitário. O Capitão Murox apenas me deu mais uma continência antes de se virar e me deixar completamente sozinho com o que quer que fosse que estivesse atrás daquele porta de metal. Engoli à seco e deu o primeiro passo.
Assim como no shuttle, a porta se abriu automaticamente, zunindo para cima como uma abelha. A luz era baixa e eu mal podia ver as paredes quando dei o primeiro passado para dentro. Meus olhos rapidamente se moveram para a grande janela que tomava uma parede toda. Logo ao seu centro estava uma figura feminina, seu longo vestido branco era um tanto quanto intrigante. O pano se passava por cima de si mesmo, abraçando as curvas da jovem garota que o vestida. A cor branca parecia se derreter com a sua pele extremamente pálida enquanto ela finalmente se virava. Seus longos cabelos loiros se esvaíram com o movimento e as orelhas de lobo em sua cabeça foram o que chamaram a minha atenção primeiro. Fora as protuberâncias que claramente saiam de seu cabelo ela era nada fora uma garota normal da minha idade. Um fino véu branco cobria o seu rosto, mas eu ainda podia ver seu fofo e carinhoso sorriso. “Você deve ser o Comandante Voss.” Sua voz parecia ressoar pela minha cabeça como um coral de anjos. Tudo sobre ela gritava etéreo.
Eu não sabia o que eu mesmo esperava, com considerando todos os rumores e coisas que eu havia escutado enquanto nas colônias humanas uma delicada garota sorridente não estava nem perto da lista. “Você deve ser o Oráculo da Paz…?” Eu perguntei, minhas voz saindo mais rouca do que eu desejava. “Sim” ala me respondeu com um sorriso que poderia derreter o coração até da pessoa mais rancorosa que existia enquanto dava alguns passos à frente “E de agora em diante seremos um par” ela sussurrou calmamente enquanto suas macias mais tomavam o meu rosto e o puxando para à frente, fazendo com que nossas testas se encostassem.
Uma estranha eletricidade pareceu passar dele para mim. Minhas memórias passavam aos meus olhos como se estivessem sendo rapidamente escaneadas, o sentimento todo fez meu estômago, já fraco depois daquela maldita viagem de shuttle, se revirar ainda mais. Mas no que pareceu um único segundo ela soltou um estranho suspiro rápido e violento enquanto me soltava e cambaleava para trás, seus olhos arregalados e só parando quando finalmente acertou o pequeno sofá arredondado e branco. Eu estava tão desnorteado quanto ela, minha cabeça parecia rodar no próprio lugar como um pião. “V-você está bem?” Perguntei notando a expressão de puro terror nos olhos na coitada. Enquanto me aproximava ela parece pensar no que me responder, principalmente quando lhe estendi a mão. “S-sim… Estou bem…” ela murmurou suavemente enquanto estendia seus esbeltos dedos para tocar minha mão.
Quando nossas mãos finalmente tocaram, aquela estranha sensação de eletricidade passou pelo meu corpo mais uma vez e meu estômago pareceu cair ao chão. No entanto, desta vez as memórias claramente não eram minhas, eu não lembrava de nada disso. Eu me vi naquele exato mesmo quarto em que estava agora, vários homens diferentes já haviam estado no meu lugar. O mesmo uniforme azul marinho, medalhas de inúmeras cores decoravam seus peitos mas todos eles eram muito mais velhos do que eu. Seus cabelos salpicados de fios brancos ou já completamente grisalhos. Alguns de seus rostos eu podia reconhecer dos livros de história da escola, estimados Comandantes da resistência que subjugavam tanto naves quanto planetas inteiros. Mas num novo flash tudo desapareceu quando ela puxou sua mão de volta, parecendo mais assustada do que antes, seus olhos arregalados como se ela fosse um pequeno cervo em frente aos faróis de um carro.
“O que… foi isso?” Finalmente perguntei enquanto meus dedos deslizavam para longe, minha voz soando rouca e quebrando o silêncio que havia se formado à nossa volta. “Isso… nunca aconteceu antes…” Paz murmurou suavemente enquanto segurava seus mãos perto de seu peito, seus olhos vagando o quarto como se estivesse procurando por algo antes de finalmente se levantar do chão, usando o sofá às suas costas como apoio “Eu acho que… nossa conexão não é estável o suficiente…” ela continua depois de alguns segundos, seus olhos finalmente encontrando com os meus.
Até então eu não havia lhe olhado nos olhos, e agora era como se meu estômago estivesse caindo novamente. Seus olhos estranhamente lilases, tão diferentes dos olhos humanos, mas tão iguais, me encaram de volta. Eu quero dar um passo para frente, me afogar no escuro mar das suas pupilas. O sentimento era estranho, não era como se eu nunca tivesse conhecido uma garota da minha idade antes. Depois de alguns segundos de silêncio, eu pisco algumas muitas vezes. Finalmente voltando ao mundo real.
“O que raios você quer dizer com “nossa conexão”?” Minha sobrancelha automaticamente se arqueia quando finalmente consigo falar algo de volta. Por mais que seus olhos fossem encantadores, suas palavras eram… estranhas. Que raios de conexão ela estava falando? Nada disso estava fazendo sentido. A garota lentamente se virou para mim, sua expressão de choque me fazendo balbuciar enquanto seu rosto parecia ter pedido toda a cor. “Eles não… te explicaram como funcionar ser um Comandante?” Sua voz era baixa, e eu tive que escutar atentamente para compreender o que raios ela estava me perguntando.
Como aquele poderia ser um trabalho diferente de qualquer outro? “Eles só me disseram que… eu deveria te proteger à qualquer custa fora comandar as missões…” Eu respondo depois de alguns segundos tentando me lembrar o que raios o conselho havia me dito algumas semanas antes. Me pergunto se eles estavam tentando esconder algo de mim. O que raios eles sabiam sobre essa garota e não me disseram? “Bom… isso é… parte de tudo…” Paz me respondeu lentamente, parecendo levemente pesar suas palavras antes de deixá-las para fora. Suas loiras orelhas de lobo se contraíram de leve. “Agora que você é o Comandante dessa nave eu sou o seu Oráculo. Aquele que vai usar seus memórias e seus conhecimentos para fazer as mais difíceis decisões pra você” ela continua, sua voz calma e suave, como se estivesse explicando aquilo para uma criança “para isso nós precisamos de uma… conexão” com suas palavras, ela aponta para a própria testa “Uma vez que eu esteja conectada à sua mente eu posso ouvir todos os seus pensamentos mais urgente e cuidar de tudo aquilo que você precise.”
Meus olhos se arregalaram. Como raios ninguém havia me avisado disso antes? Para falar a verdade, se eu soubesse que teria alguém ouvindo meus pensamentos vinte e quatro horas por dia eu provavelmente teria continuado como um soldado nas trincheiras das colônias. Me levaram alguns segundos até que eu conseguisse fazer as palavras finalmente saírem da minha garganta. “Então… você pode ouvir meus pensamentos?” Eu sabia que tinha uma expressão de choque no meu rosto pela forma com que ela me encarou, um tanto quanto confusa e perdida. Até porque, aparentemente, toda essa informação já deveria ser algo que eu sabia. E com toda a certeza eu iria reclamar com o conselho assim que os visse. Mas naquele momento tudo que eu tinha em mente era como tudo aquilo era assustador. Ter alguém lendo todos os pensamentos, incluindo os mais obscuros dentro da sua mente era algo assustador em um nível que eu nunca havia presenciado.
Mesmo que agora fossemos parceiros, ou seja lá o que for, eu só havia conhecido a garota na minha frente alguns minutos atrás. Eles estavam mesmo esperando que eu compartilhasse absolutamente tudo com ela? Não fazia o menor sentido.
“Sim… eu consigo e…” sua voz se interrompeu por um segundo, como se ela estivesse tentando encontrar as palavras certas “eles são um tanto quanto barulhentos…” ela finalmente continuou, usando suas pálidas mãos para cobrir as orelhas de lobo em sua cabeça.
Sua resposta só aumentou mais ainda o meu estado de choque. Como assim meus pensamentos eram barulhentos?! Mas eu não podia negar que parte de mim parecia anestesiada à ideia simplesmente porque ela ainda era uma garota um tanto quanto bonita. E se eu não tivesse nenhuma outra opção então porque não uma garota como ela. “Barulhento? Do que você está falando?” Eu lhe perguntei um pouco mais incrédulo do que antes. “Você está assustado sobre como a nossa conexão pode ou não funcionar. Mas você não está tão preocupado porque…” sua voz falou novamente, suas bochechas ganhando um suave tom rosado “porque você acha que sou atraente…” assim que meu cérebro processou as suas palavras meu corpo todo se gelou.
“Isso… não é verdade…” eu gaguejei, deixando minha atuação aquele tanto menos convincente enquanto eu podia sentir minhas bochechas queimando. Ela estava certa, aqueles eram exatamente os pensamentos na minha cabeça. Ela estava ouvindo. Ela estava ouvindo tudo. “Mas… não é isso que me incomoda…” ela murmurou enquanto apertava suas mãos juntas sob seu peito. Meu coração parou por meio segundo, ela havia visto alguma coisa tão ruim assim na minha cabeça? “O que… você viu?” Lhe perguntei levemente aterrorizado. “Estava tão escuro… havia um homem e uma mulher… eram… seus pais?” Ela perguntou delicadamente, e tudo que vinha em minha cabeça eram os malditos pesadelos e as imagens daquele maldito dia. O dia que meus pais foram mortos. Onde eu pude fazer nada fora sentar num armário, escondido, assustado e sem força para fazer absolutamente nada. “Sim.” Foi tudo que consegui lhe responder, meus punhos se serrando enquanto eu tentava encontrar as palavras.
“Estava… bem na frente da sua mente…” Ela sussurrou de leve, uma expressão de tristeza e preocupação tomando seu rosto pálido e angelical. Considerando que nem eu mesmo gostava de lembrar da cena imagino que tenha sido um choque e tanto para ela que não fazia a menor ideia do que iria ver. Mas isso me fazia questionar se ela já havia visto coisas parecidas ou piores nas mentes de outros Comandantes. Não devia ser algo tão impossível não é?