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É por isso que agora que sou velho e minhas juntas todas doem, decidi revisar este antiguíssimo projeto de biografia que provavelmente me custará mais dinheiro do que irá me dar no final. Mas ainda sinto que ela merece que sua trágica história seja eternizada. Aquela que roubou a atenção de milhões e os corações de alguns, mas que muitos poucos em seu habitat natural conheciam. E ao meu agente que com toda a certeza irá ler este manuscrito e mandar pelo menos alguns e-mails irritados, me desculpe, mas eu devo isso à ela.
Eu ainda me lembro como se fosse ontem, havia acabado de me formar em jornalismo alguns meses antes e aquele era meu primeiro trabalho real como jornalista, uma entrevista com uma cantora que havia acabado de lançar seu primeiro álbum de estúdio mas já estava com o nome na boca de todos dentro da indústria. Fossem os produtores, agentes, músicos ou compositores todos estavam falando sobre ela. Enquanto sentava naquele desconfortável sofá que provavelmente havia custado uma fortuna que até hoje não compreendo, tudo que eu sabia sobre ela era que ela havia acabado de lançar um álbum polêmico e que seu nome artístico era "Zero" por algum motivo. Para falar a verdade, eu estava suando como um assassino no caminho para a cadeira elétrica, fosse porque ela já estava atrasada fazia mais de uma hora ou fosse porque estava extremamente nervoso considerando a importância que meu chefe havia colocado em cima dessa única entrevista. "Você precisa fazer ela parecer bem, Maxewell pagou muito pra gente fazer essa entrevista", lembro das palavras como se tivesse as ouvido ontem mesmo. Foi quando eu já estava prestes a desistir e voltar para o prédio pra entregar meu passe de jornalista de volta na recepção da revista que a porta se abriu entre alguns risinhos embriagados e meu coração deu um pulo. O que eu vi não era uma mulher acostumada a cantar num palco e que basicamente liderava uma banda inteira, eu vi uma adolescente de talvez no máximo seus 18 anos, cambaleando para dentro da pequena sala de entrevistas enquanto ria e mandava alguns beijinhos para o segurança que estava parado como uma estátua viva na porta.
Eu até hoje não tenho palavras para descrever o quanto aquela cena me assustou à princípio. Zero era apenas uma adolescente, uma garota esbelta e pálida de longos cabelos descoloridos até ficarem brancos e entre seus fios lisos alguns dreads sintéticos que compunham a maior parte do seu cabelo até quase seus cotovelos. A maquiagem preta e pesada demarcavam seus olhos azuis claros e amendoados que apenas acentuavam ainda mais sua óbvia juventude. Por alguns segundos me peguei questionando se ela só não era mais velha do que parecia, sabe? Mas o jeito despojado e juvenil com que ela estirou seus pés pra cima da pequena mesa de centro apenas desprovaram minhas suspeitas. As gastas solas de suas botas pesadas e demasiada sujas apontavam para uma vida e uma pessoa muito diferente da que eu imaginei. Mas talvez aquele tenha sido meu primeiro erro. Achar que a pessoa que estava sendo acusada de ser o próprio anticristo pelos conservadores seria qualquer coisa se não subversiva.
"Então é você quem vai fazer a entrevista?" Ela me perguntou com um sorrisinho quase infantil e doce se não fosse pela clara malícia em seus olhos. Mas sua voz rouca e um pouco mais grossa do que eu esperava foi o que me fez finalmente voltar a realidade. Eu precisava fazer toda uma entrevista com aquela garota. E posso te dizer com toda a certeza que eu não sabia absolutamente nada sobre ela ou sua música. Para falar a verdade, ela não fazia o tipo de música que eu gostava.