vampiros de ponta grossa

última atualização: | word count: 0 palavras

#commission #biografia_fake #romance(?) #vampiros #pt-br

trigger warning: uso de drogas, álcool
Como vampiros brasileiros seriam? Não os antigos, não aquelas que imaginamos como seres que viveram milênios. Vampiros jovens, modernos? Essa é a história de Guilherme e seu pequeno grupo de "alienados" como vampiros numa cidade pequena.

notas: Pensei se queria postar ou não, essa era uma commission que um ex me pediu para fazer baseado na cidade onde ele morava. Questionei por muito tempo se eu queria que o mundo visse isso, mas sinto que a história em si, tirando as minhas emoções de lado, é boa.

Capítulo 1: Como conhecemos a Clara

“Claro que eu lembro, porra.” Foi o que eu disse enquanto todos riam, sentávamos no finalmente terminado lago das Olarias pra beber. No nosso grupo de alienados todos se conheciam desde que nos lembrávamos como criança. Crescemos no mesmo bairro, fomos pra mesma escola. Todos menos a Clara. “Se você lembra tanto assim então conta a história, Guilherme.” Davi zombou antes de virar todo o resto da cerveja e deixar parte escorrer pelo queixo. Mas eu realmente me lembrava como se fosse ontem quando conhecemos a Clarinha.

Era mais uma sexta-feira como todas as outras, havíamos acabado de descer do ônibus, já caindo de bêbados, nem eu mesmo me lembro quantos goles de vodka misturada com sangue havíamos bebido, aquele era, afinal, o único jeito de se embebedar depois de morrer. O Cadillac Dinossauros estavam tocando naquela noite, “vamos acabar com o barato e fazer acontecer”, aquela era a letra que eu nunca esqueci porque tudo que eu conseguia ver com a visão já turva e bagunçada na multidão era aquele cabelo rosa neon pulando. A polaca era branca como uma morta, ou talvez eu devesse dizer igual a gente, mas de um grupo claramente diferente considerando que ela mais parecia ter saído da cidade grande do que do nosso pequeno buraco de cobra. “Aquela é nova…” eu lembro de ter dito em voz alta enquanto cutucava Lucas com o cotovelo. Naquele singular momento o mundo pareceu pular com a batida da música, ou talvez fosse só o álcool subindo pro meu cérebro, Satanás sabe o que me deu naquela hora. Só sei que ela dançava como se a música tivesse sido feita pra ela, mesmo no meio do empurra empurra enquanto alguém corria da polícia pelo meio da multidão ela continuava nem um pouco afetada. Era como se seu corpo só conseguisse se mover ao ritmo perfeito da música, e a esse ponto eu já estava em transe.

Rafa me deu um tabefe na nuca, e era como se todo o mundo tivesse voltado ao foco. “Tá babando, lazarento,” ele disse rindo enquanto eu secava a pouca baba que ainda estava no meu queixo “vai falar com ela logo, usa o charme” ele continuou, dando a entender que eu deveria usar aquele olhar esquisito nela enquanto os outros apenas me empurravam pra frente. Até então eu não sabia se ela era humana ou não, mas com toda a certeza não parecia. Lembro de ter empurrado pelo menos uns quatro da minha frente com uma carranca antes de conseguir chegar até ela que parecia estar em outro planeta, Vênus talvez? Era esse o ditado popular? Sinceramente não me importava e até hoje não sei.

Lembro de ter dado uns toquinhos no seu ombro, e na mesma hora ela virou parar mim com os olhos azuis dilatados, drogas, com toda a certeza alguma coisa pesada. Mas não era de se admirar, ela estava vestida como tivesse vindo pra uma rave. A saia curta, a meia desfiada, a camiseta velha do Ramones cortada ao meio… Tudo o suficiente pra eu talvez me apaixonar à primeira vista… Mas não é disso que eu vim falar. “Que foi?” Ela me gritou por de baixo da música alta, seus olhos azuis e seu sorrisinho confuso fazendo meu coração quase voltar a bater. “Queria saber teu nome.” Eu de alguma forma espremi as palavras pra fora enquanto encarava as pequenas marcas em seu pescoço. Marcas que eu também tinha e que com toda a certeza ela havia notado considerando seu sorrisinho malicioso. “Clara, e o seu?” Ela me perguntou de volta enquanto se inclinava um pouco mais para perto pra não ter que gritar tanto. Por meio segundo eu jurei que meu coração havia voltado a bater considerando que aquela criaturinha pálida e quase transparente estava à só alguns centímetros de mim. “Gui… lherme” sibilei com certa dificuldade, o álcool fazendo tudo à minha frente se estremecer quanto mais alto a música parecia ficar.

Clara riu, suas presas levemente visíveis, e aquele foi o primeiro sino tocando dentro da minha cabeça. Ela provavelmente era tão jovem quanto a gente. “Você é…?” perguntei, gesticulando com a mão pra minha própria boca. Por meio segundo ela me encarou, seus olhos descendo para o meu pescoço antes de acenar com a cabeça, seu cabelo que mais parecia ter uma cor tóxica de rosa flutuando à sua volta. A cena ainda era tão clara que-

“Você lembra ou não?” Rafael, repetiu a pergunta, me tirando do estranho sonho à céu aberto que eu parecia ter entrado sem notar. “Claro que ele lembra, se não lembrasse seria um bocó pior do que já é.” Clara respondeu no meu lugar, suas palavras causando uma erupção de risadas entre todos. “Haha, muito engraçado, morcego de cidade grande.” Respondi levemente constrangido e irritado. Considerando que eu era o “líder” do nosso pequeno grupo ainda me surpreendia com o número de xingamentos amigáveis que todos jogavam na minha direção. “A gente se conheceu no sexta às seis, antes de ter virado a paia que é hoje em dia. Não dá nem pra arrumar uns lanchinho de tão pouca gente!” Exclamei enquanto me recostava na grama, o céu estrelado por cima do lago refletindo a lua cheia enquanto algum cachorro aleatório uivava pelo dono.

“Falando em lanchinho, já não está na hora da gente arrumar algum?” Clara perguntou com um sorrisinho malicioso. Cada um tem seus vícios, no caso dela são usuários, tudo pela brisa que ela sentia quando ainda era viva. Mas não julgo, Lucas, Rafael e eu misturamos sangue com todo o tipo de bebida alcoólica possível pra sentir a exata mesma coisa. “Talvez a gente devesse falar com o Ireneu primeiro, sabe como ele é sobre a gente puxar qualquer um da rua.” Respondi com um suspiro cansado. Se alimentar nem sempre era algo fácil, pelo menos não pra Clara, o que sempre causava problemas considerando que aquele território não era exatamente nosso. “Aquele rato de bueiro? Porque raios ele é o chefão mesmo?” Clara questionou enquanto rolava os olhos.


Capítulo 2: a história do Irineu

“Porque ele é o mais velho da cidade” Rafael respondeu com um suspiro próprio “pelo que eu ouvi falar ele é tão velho que quando chegou aqui a cidade mal existia.” Todos se entreolharam, ninguém realmente acreditava nas histórias sobre o Irineu considerando que todos tinham certeza que ele era mais do que louco. “Rato de esgoto ou não ele ainda é o chefe, então sem lanche pra você, Clarinha.” Provoquei com uma risadinha enquanto ela bufava. “Mas o que vocês sabem dele de qualquer forma? Não é como se todos juntos não pudéssemos passar por cima dele, né?” Clara perguntou de volta, nos entreolhamos novamente, mas dessa vez Lucas apenas riu.

“Sei lá, ele me parece velho o suficiente pra ser um antidiluviano.” Lucas continuou antes de puxar mais um cigarro da pequena pilha de caixas de marcas baratas que haviam se formado. Aquela era a parte boa de já estar morto, nenhuma doença aleatória poderia nos matar, por mais que reaprender a fumar tenha sido uma tarefa e tanto. “Pelo amor de Deus, ele é um nosferatu mendigo que vive no estacionamento do mercado Big.” Clara notou enquanto rolava os olhos novamente e se recostava na grama. “Tá, talvez ele seja um pouco louco das ideia, mas isso não muda o fato de que foi ele quem explicou tudo…” eu pausei, gesticulando pras presas e a marca quase desaparecida no pescoço “isso pra gente.” Rafael concordou com a cabeça, “Sim, ele é basicamente nosso mentor a esse ponto.”

Clara ainda não parecia acreditar muito nas nossas palavras, mas eu não a culpava. Irineu era, como ela mesmo disse, um nosferatu mendigo que vivia no estacionamento de um supermercado e ninguém sabia muito sobre ele fora o que todos conseguiam ver. Ele era um nosferatu, e claramente vivia na rua. “A gente pode só ir perguntar pra ele se tá tudo bem caçar hoje.” Davi responder dando de ombros enquanto jogava uma pedra pedida na direção do lago. “Alguém tem dinheiro pro ônibus?” Perguntei, e notei que todos suspiraram quase ao mesmo tempo antes de acenarem com a cabeça “Que bom, porque acho que aquele é o último ônibus pra lá…” Respondi enquanto pegava tudo que podia do chão, fossem as garrafas ainda não terminadas fossem os pacotes de cigarro enquanto Lucas e Davi gritavam para o motorista esperar.

Já faziam basicamente dez anos desde que havíamos nos transformado, e foi depois de algumas das nossas primeiras noites testando os novos “poderes” que conhecemos o Irineu. A principio ele se aproximou de nós enquanto já estávamos mais do que bêbados no parque ambiental. “Vocês aí, píazada.” Ele gritou na nossa direção, e por alguns segundos todos o encaramos como se o álcool tivesse de alguma forma afetado a realidade mais do que deveria. “Eu tô louco ou tem um ratão bem ali?” Davi perguntou enquanto tropeçava por cima das suas palavras. Rafa riu e caiu de costas na grama, o que só pareceu deixar Irineu com ainda mais raiva. “Mas vocês são um bando de lazarentos mesmo! Quem pensam que são pra fazer toda essa baderna na minha cidade?!” Ele gritou em nossa direção, e por meio segundo senti o pouco sangue que ainda existia no meu corpo congelar. “Sua cidade?” Perguntei incrédulo, ainda levemente delirante. “Sim, minha cidade! Sou o vampiro mais velho desse lugar, então eu quem mando!” Antes mesmo dele terminar de falar Lucas já estava se matando de rir, e não levou muito para que todos nós estivéssemos rindo também.