{11} o príncipe não existe
Mês passado, depois de quase 8 anos juntos ele terminou comigo. Aparentemente nossa relação estava "fria de mais".
Por algumas semanas pensei ser minha culpa, chorei, ainda choro, mas agora consigo notar que ele só pode dizer isso porque já levou tudo que eu tinha pra dar. Eu amei ele com todas as minhas forças, estive do seu lado mesmo quando estava errado, mesmo quando me sentia machucado pelas suas ações, mesmo quando todos os meus amigos o odiavam por todas as vezes que me largou chorando. Mas claramente eu só fui idiota.
Nunca foi amor que ele quis, pelo menos não do tipo que eu podia dar sem tudo que me torna eu interromper. O que ele queria era a fantasia sexual de mim que sua mente criou quando começamos a namorar, quando eu ainda estava conhecendo o mundo pela primeira vez mas todo mundo já tinha seus ideais formados. E eu tenho certeza que ele sabia disso.
Ainda me lembro de todas as vezes que me forcei a ser hiper sexual com ele, na esperança de "talvez hoje ele me ame", "talvez hoje ele não vire pro lado e durma mas me olhe como se eu merecesse também". Nunca aconteceu, nem depois de eu pedir...
Ainda lembro das palavras "parece que você tem nojo de mim", ele dizia enquanto tudo que eu conseguia fazer do outro lado da tela era rir. Rir da irônia que ele se sentia sujo e nojento enquanto eu estive sofrendo em silêncio todos esses anos pela forma com que ele me via apenas como um objeto sexual. Todas as vezes que me perguntei se eu era nojento por ele sempre gozar mas nunca nem questionar se eu queria também ou não.
Sim, nossa relação se tornou fria no sentido sexual, mas não foi porque eu achava ele nojento, foi porque eu desisti de pedir, desisti de tentar, desisti da ideia que um dia ele iria me ver como mais do que um buraco.
Lembro como me senti desconfortável um tempo atrás, chateado na verdade, quando descobri que ele nunca disse pra ninguém na vida dele que eu era trans, que meus pronomes não eram mais femininos já faziam 5 anos. Na verdade, me senti muito machucado por ele usar pronomes femininos quando falava de mim pras outras pessoas, levando elas a achar que eu era na verdade uma mulher cis e não uma pessoa trans. Lembro de nem uma única vez no mês que fui visitâ-lo ele ter corrigido a mãe, o padrasto, os avós... na verdade, a irmã dele foi a única que corrigiu.
Nesse último mês eu notei que eu era a fantasia e não a pessoa. Eu ser "diferente", ser quem eu sou, era "exotico e divertido", mas só até o ponto onde começava a causar problemas pra ele. No momento que eu tinha um meltdown, que ele precisava se levantar e me defender, de repente eu não valia mais nada, eu não era mais nada dele.
As vezes me pergunto se em algum momento nesses quase 8 anos ele me amou, amou quem eu sou e não apenas o corpo que habito. Corpo que ele sabia que eu odiava, corpo que ele sabia que me causava disfória. Mas não é como se ele algum dia tivesse tido o mínimo de consciência pra pesquisar o que nada disso quer dizer, de entender ao que isso leva. Claro que não, eu quem deveria mastigar todas as informações e vomitá-las em sua boca como um pássaro.
Eu tentei, tentei fazer as coisas que ele queria mas eu nunca podia estar mau, nunca podia chegar no meu limite. Eu não podia ser eu, não podia ter minhas limitações, porque não era isso que ele queria. E tenho certeza que se meu cérebro fosse mais neurotípico, se eu não tivesse todos os problemas que tenho, que ele me amaria. Porque ele nunca amou quem eu realmente era, porque a verdade é estranha de mais, triste de mais, pesada de mais.
Talvez seja ruim da minha parte dizer isso, mas a verdade é que eu espero que ele sofra, sofra pela minha falta, sofra por não achar nenhum outro otário que vá aguentar a desgraça que ele é na realidade. Que um dia todos saíbam como ele não é nada do que diz.
Eu espero que um dia eu tenha a coragem de contar toda a história pra todo mundo.
abyss~E aqui vai uma música para te embalar neste post:
img: 漏流波流