Antes do Blogger o único lugar da internet que eu frequentava com frequência era o Neopets. Foi lá que eu descobri os sites personalizados, páginas onde as pessoas colocavam toda a sua criatividade artística e mostravam seus dons. Eu nunca fui uma dessas pessoas que era boa em arte, nenhuma delas. Sempre fui extremamente medíocre na maioria das coisas e levemente ok na escrita. Eu sabia que eu não era um ótimo artista, nunca iria ser, então foquei em criar uma história com esses personagens que comecei no Neopets. Com os anos eles foram evoluindo, e eu saí do jogo por não poder expressas essas novas fronteiras, então fui pro AO3 onde postava minhas histórias sem tags com medo de levar hate por não saber inglês direito.
O problema de todos esses lugares onde eu acabei me enfiando é que nenhum deles me dava a liberdade que eu estava procurando. Eu sabia que a indie web existia, eu peguei o final dos sites pessoas no angelfire entre alguns outros, vi como as redes sociais, aos poucos, foi perdendo a cor e a customização, deixando tudo padronizado e igual. Eu queria ser popular na internet, sempre quis. Quando criança aspirava mais do que tudo poder fazer vídeos e postar eles na internet, ser conhecido por sabe-se lá o que. A única coisa que eu não sabia era como tudo isso 1. dava trabalho e 2. requeria um certo talento e disposição que meu cérebro não tinha. Talvez por isso eu tenha ido de uma plataforma à outra, sempre deixando as coisas cada vez menos pessoais e colocando uma máscara que não me servia.
Desde então eu tinha uma imagem vaga na minha mente, de um lugar onde eu pudesse colocar todas as coisas que eu tinha na minha mente, com as cores e as formas que eu quisesse e onde eu não teria medo de apenas escrever.
Em 2020, durante a pandemia eu me vi pela primeira vez sem ter nada para fazer na internet, rolando pelo tumblr e entediado. Ali eu encontrei um guia sobre a indie web, onde você poderia colocar o seu site pessoal e como começar. Eu sabia html, eu sabia css, eu tinha uma noção básica de como juntar os dois graças ao Neopets... e mesmo assim eu fiz absolutamente nada com isso. Eu cheguei até o Neocities, criei uma conta e fui embora, deixando ela juntar poeira por mais ou menos 4 anos antes de finalmente levantar a primeira (tecnicamente segunda) versão do Pieces of Wonderland.
Quando finalmente comecei a recriar o Pieces of Wonderland, falecido blog até então, ele iria ser apenas isso: um blog. Toda a primeira interface e layout era de um blog muito parecido com o Blogger da época em que eu o usava. Mas aos poucos fui descobrindo outros sites hosteados no Neocities e fui notando que ele podia ser mais do que isso. As mídia sociais já tinham começado a ter um efeito negativo na minha saúde mental alguns anos antes quando eu notei que estava comprando coisas apenas por comprar, apenas porque fui facilmente influenciado à tão ação. Isso tirando o fato de que não importava o que eu fizesse meu algoritmo continua me mostrando coisas que eu claramente não tinha interesse algum.
Comecei com "reviews" de livros. Eu não tinha muita paciência pra usar o StoryGraph (ainda não tenho mesmo tentando) e queria algo onde eu pudesse escrever um pouco sobre minha experiência ou pensamentos sem ter que me importar com a opinião alheia. Depois vieram as reviews de filmes e séries. Nunca usei o Letterboxd e nem o IMDB, então me pareceu uma forma simples de não me perder no que já havia assistido ou não.
Nesse meio tempo eu estava em uma relação nem um pouco boa com uma pessoa que me fez muito mal. E assim como na época do Blogger, essa pessoa também não ligava pra nada que eu estava fazendo ou escrevendo, mesmo o blog tendo posts extremamente preocupantes que mostraram o quanto eu estava sofrendo com a minha saúde mental e o fato de que as pessoas ou não estavam prestando atenção ou não ligavam pra isso. Por isso, por alguns longos meses, as atualizações foram diminuindo e as palavras escritas também, até o ponto em que eu larguei tudo de novo.
Esse é, tecnicamente falando, a terceira reencarnação do Pieces of Wodnerland, com a maior diferença sendo que talvez pela primeira vez tudo aqui é a realidade e não a máscara que eu tanto tentei segurar na frente do meu rosto.
Quando decidi mudar de URL e começar do zero eu havia acabado de terminar com essa pessoa da qual comentei, eu havia estado naquela relação por quase 8 anos, sempre mentindo pra mim mesmo que as coisas iriam melhorar e mudar. A página inicial foi a primeira coisa que fiz como uma forma de me encontrar de novo, de lembrar das coisas que eu gostava e de finalmente chegar naquela vaga imagem que eu tinha na minha mente. Foi minha forma de dizer que tudo isso era meu e de mais ninguém.Na época em que criei o blog, Alice: Madness Returns tinha acabado de ser lançado (ou estava para ser lançado) e nunca vou me esquecer do fascínio que eu tive pelo visual daquele jogo. Tinham outras adaptações da história que eu também gostava muito na mesma época, mas os pequenos pedaços do País da Maravilha se juntando ao mundo real foi o que inspirou o nome de Pieces of Wonderland, como se pequenos pedaços da minha imaginação estivessem fugindo e se mostrando na vida real.
Com o tempo fui abandonando esse título e podando o que eu podia ou não mostrar pro mundo, na maior parte pelo bullying e em outra parte por querer parecer mais normal na frente das outras pessoas. Isso me levou à uma longa jornada onde aos poucos eu não sabia mais distinguir o que eu havia criado como um personagem e quem eu realmente era. Talvez pra qualquer pessoa lendo essa seja uma receita óbvia pra um colapso mental, mas até então eu jurava estar fazendo o certo, jurava que diminuir a minha estranheza era a única forma das pessoas gostarem de mim e ser aceito em qualquer grupo.
Quando decidi me juntar à indie web eu sabia que precisava voltar atrás, que precisava me reconectar com esse título que, antes, significava tanto pra mim.Sei por cima que chicheua é uma língua africana e que é falada principalmente no Maláui, na Zâmbia, em Moçambique e em Zimbábue. Talvez eu devesse ter mais curiosidade sobre? Talvez, mas não vou fingir que sei ou que tenho.
Phantasmagoria, no caso, é um dos meus jogos de terror favoritos. Ouvi falar dela pela primeira vez quando ainda era uma criança na internet, sobre como havia sido banido em tantos e tantos países por ter imagens fortes e ser muito sanguinolento. Em 2016 eu comprei um bundle (não me lembro onde) que tinha os dois jogos da série e alguns outros jogos de aventura e point and click, então pude ver por mim mesmo que o jogo em si não tinha nada de mais. A história era interessante e muito boa, mas não tinha nada de tão violento como as história haviam me dito.
Isso não me desincentivou de jogar o segundo jogo, que se tornou o meu favorito de verdade. Phantasmagoria 2: A Puzzle of Flesh segue o protagonista, Curtis, no que deveria ser apenas mais uma semana normal na sua vida. Aos poucos coisas estranhas vão acontecendo e ele é acometido por visões bizarras e sem explicação de criaturas feitas inteiramente de carne. Curtis começa a questionar sua própria sanidade até o ponto onde ele simplesmente desiste da ideia de ter uma vida normal e abraça suas visões, descobrindo que ele era uma das criaturas este tempo todo.
O fato de ele ter se sentido tão alienado a vida toda só pra descobrir que ele nem era humano fez com que eu me conectasse muito com a história, talvez mais do que eu queira admitir. A história e os visuais do jogo deixaram um impacto bem grande na minha consciência desde 2016, e o fato de que a palavra em si signifique uma combinação ou coleção de coisas bizarra ou fantásticas também fazia todo o sentido com o que esse site seria.Cada site é único, uma reflexão do usuário, do ser humano, por trás da tela. Eles falam de coisas largamente diferentes porque cada pessoa no mundo é tão diferente. Eles guardam criações e artes de diferentes formas que uma mídia social não compreenderia. Talvez a nostalgia esteja gritando mais alto, por mais que eu nunca tenha tido nenhum experiência com a indie web antes desse site, ou pelo menos não considero meu tempo no neopets como isso.
Eu não vi os sites pessoais do angelfire ou do geocities quando eles eram plataformas populares, ainda era muito criança pra isso. Mas vivi sonhando com esse mundo por conta do neopets, por conta do blogger. Sinto falta de uma internet feita para quem se considerava esquisito e fora das bolhas mainstream. Mas hoje em dia toda a internet é mainstream.
O que quero dizer é que na minha visão esse é um espaço ainda dominado pelo nicho. Por isso estou aqui.